Certamente alguém já leu ou ouviu falar de D.Quixote De La Mancha, o Cavaleiro da triste figura. Era um arremedo de herói à moda antiga, que combatia moínhos de vento, imaginando-os com a forma de gigantes. Hoje uma sensação de vazio toma conta de mim, transportando-me a uma paisagem medieval, onde não sei bem se sou um dos moínhos ou se sou o cavaleiro, porém com sua lança quebrada e sem o seu fiel Escudeiro Sancho Pança. Creio ter cometido o delírio de achar que um simples médico bem intencionado poderia ter forças para lutar contra máfias, contra oportunistas entronados em Associações e Federações, verdadeiros vendilhões do templo, que galgaram o poder para proveito próprio . Refiro-me a mim mesmo como um médico consciente do seu papel junto à sociedade e preocupado com o mundo do qual faz parte. Percebi (ao longo do tempo vivido na prática de exercícios, buscando a promoção da saúde e o prazer de elevar minhas endorfinas), que o uso de esteróides anabolizantes androgênicos veio gradualmente crescendo em volume de usuários e volume de doses, crescimento este muitas vezes acobertado por um corporativismo hipócrita, sem que a minha querida classe esboçasse qualquer atitude de preocupação e, paralelamente, desenvolvesse um programa competente de interferência da categoria dos profissionais de saúde nesse gigante, que certamente não é apenas um moínho imaginário. Fiquei modestamente conhecido por algumas pessoas envolvidas com a prática de musculação, através dos cursos que proferi na FEPAM , no CECAFI , em Faculdades , através de matérias minhas publicadas em revistas , tentando sempre trazer conhecimento científico revestido de verdades e alertas sobre os perigos do uso de drogas farmacológicas na busca do supercorpo. Procurei encontrar estratégias efetivas para lutar contra esse uso inconseqüente e abusivo, que hoje não é mais um atributo de atletas, pois não é só em mochilas de marombeiros que as ampolas e comprimidos viajam, na companhia de potes de massa e meias fedorentas, mas também, junto com batom e rímel, na necessaire das jovens. Mas parece que muitos dos meus colegas, como os três macacos, não escutam, não vêem e não falam, exceto quando é para criticar, sem sequer saber a extensão e os desdobramentos do assunto, nem o que acontece nos bastidores desse circo.
O SBT levou ao ar essas imagens tendenciosamente editadas, sem sequer ter me procurado, e ainda emitiu a falsa informação de que eu estava foragido de minhas QUATRO clínicas (eu tenho apenas duas salas de consultório) No dia seguinte, o Sr. Eduardo do SBT ligou para mim, agendando uma entrevista no mesmo dia, que se realizou em meu consultório, onde procurei expor as bases do meu trabalho, que são calcadas na preocupação com os riscos à saúde decorrentes do uso de esteróides. Novamente a entrevista foi indevidamente editada, disseram que eu tenho até site na Internet (não tenho), fizeram uso de minha imagem sem minha autorização escrita e incluíram como um dos comentaristas da entrevista o Sr. Alexandre Pagnani, que disse estar realmente surpreso (!?) com a gravidade do ocorrido. Muito intrigantes também foram os telefonemas ameaçadores que eu e minha esposa recebemos nos últimos quinze dias, pelo fato de eu estar atrapalhando os negócios da venda de esteróides , ao vetar ciclos cavalares e ao alertar sobre o perigo das drogas falsas que estão infestando o mercado. Vale a pena citar que os pacientes que procuram o consultório com o motivo Esteróides, são um percentual muito pequeno e, na maioria, pessoas complicadas (há exceções), que gastam um tempo imenso na consulta, que fazem N retornos, que telefonam muito além do normal e que não trazem a mínima compensação financeira para o consultório pois, realmente, foram atendidos por amor à profissão e pela compensação profissional do dever cumprido. A atitude de Pilatos - lavar as mãos e dar as costas ao que acontece, sem se envolver - talvez se encaixe melhor no conceito de Ética que um famoso colega de profissão, o qual admiro muito, emitiu logo após a minha entrevista truncada e editada pelo SBT pois, segundo ele (e de acordo com o Código de Ética Médica), o médico não pode receitar esteróides anabolizantes para quem não esteja precisando. Segundo um artigo do Dr. José Maria Santarem intitulado O médico e os anabolizantes, não é proibido ao médico receitar medicamentos esteróides anabolizantes mediante receituário médico; o que é proibido é o uso por parte de atletas de competição. O que foi prescrito é uma quantidade pequena, para um paciente que não é atleta competitivo, cuja necessidade é pessoal e profissional, sendo que o ato médico realizado visou apenas preservar a integridade do paciente , dando uma opção com toda a certeza segura , ao invés de virar-lhe as costas para que o mesmo se submetesse a uma overdose perigosa de múltiplos esteróides anabolizantes , inclusive de origem e qualidade duvidosas. Fica no ar a pergunta cuja resposta me aliviaria muito: O que nós médicos poderíamos fazer, para interferir nesse uso crescente de anabolizantes esteróides? Não gostaria de ouvir como resposta: NADA , FIQUE NA SUA E NÃO SE ENVOLVA! Seria muito cômodo, mas não me deixa confortável para com minha consciência, talvez pela extensão do conhecimento que tenho nessa área, que é fruto de dez anos de estudo e pesquisa, dos meus vinte e cinco anos de exercício da profissão de médico, que procuro exercer com honra e critério, mas também com o coração. Por favor, sou apenas um médico inofensivo, um dos moínhos que alguém imagina ser um gigante, não sou motivo para preocupações. PARTICIPAÇÃO EM: PALESTRAS PROFERIDAS E CURSOS MINISTRADOS:
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