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MUSCULAÇÃO, SAÚDE E LONGEVIDADE:

Até meados do século XX a comunidade científica ainda tinha algumas dúvidas sobre a relação da atividade física habitual com a saúde e a longevidade. Na época, em contraposição ao conceito de que atividade física promove saúde e longevidade, havia a hipótese de que as pessoas geneticamente favorecidas para melhores condições de saúde e longevidade também tinham mais disposição geral e por isso também eram mais ativas. Com o passar dos tempos, diversos estudos populacionais puderam fornecer bases epidemiológicas e estatísticas sólidas para o conceito atual sobre o assunto.

Atualmente se sabe que a base da saúde e da longevidade é genética, com pessoas predispostas a viverem mais tempo e com menos doenças, mas a influência de fatores ambientais é grande e pode contribuir decisivamente para o resultado final. Por um lado, fatores ambientais importantes são a atividade física, a boa alimentação e o repouso adequado, e por outro lado, a ausência de fatores nocivos como o estresse emocional, as drogas, a falta de repouso, a poluição do meio ambiente e a exposição a agentes patogênicos, como no trabalho insalubre e na ausência de saneamento básico. No que diz respeito à atividade física, seus efeitos positivos ocorrem na prevenção de doenças que poderiam abreviar a vida e na melhoria da condição física, para que as atividades da vida diária sejam realizadas sem grandes esforços e sem maiores riscos para a saúde.

Os primeiros estudos realizados sobre os efeitos da atividade física na saúde levaram a resultados posteriormente contestados, mas que influenciaram toda uma geração de profissionais. Na época em que o movimento “fitness” ganhava popularidade, vendia-se a idéia de que os exercícios aeróbios (popularmente chamados “aeróbicos”) eram os únicos capazes de estimular a saúde e melhorar a qualidade de vida por meio da aptidão física adequada. Associações de profissionais que compartilhavam dessa visão filosófica do tema foram constituídas, e os estudos científicos realizados sob a sua égide enfocaram os exercícios aeróbios. As conclusões desses trabalhos mostravam efeitos saudáveis da atividade física, mas enunciados como “efeitos dos exercícios aeróbios”. Na realidade, os outros tipos de exercícios não haviam sido estudados.

Como não poderia deixar de acontecer, logo essa falha no enfoque do problema foi percebida, e trabalhos científicos sobre os efeitos de outros tipos de exercícios começaram a ser publicados. Trabalhos sobre os efeitos de outras formas de atividade física também começaram a aparecer, como o estudo das populações que tinham trabalho braçal. Os resultados desses trabalhos mostraram que um dos fatores ambientais mais deletérios à saúde, à qualidade de vida e à longevidade, era o sedentarismo. As evidências apontaram para o conceito de que qualquer tipo de atividade física é promotora de saúde, no seu sentido mais amplo. Em recentes revisões de literatura, as mais importantes entidades científicas internacionais endossaram esse novo conceito, incluindo aquelas vinculadas historicamente com os exercícios aeróbios, o que demonstra o reconhecimento de um erro de enfoque, mas também da idoneidade. Como exemplo dos novos tempos temos as campanhas internacionais de saúde pública, que preconizam evitar o sedentarismo sem sugerir que se realizem exercícios aeróbios, estimulando como alternativas ou adição aos esportes, as atividades físicas laborativas e de lazer, que geralmente não são aeróbias.

Muitos dos trabalhos que contribuíram para a mudança dos conceitos estudaram os exercícios resistidos, mas o estudo do trabalho braçal também foi importante, visto que os esforços na musculação mimetizam muitas das atividades de trabalho. Além disso, algumas evidências sugerem que para alguns objetivos de saúde e qualidade de vida os exercícios resistidos são superiores. Resumindo esse aspecto da questão, podemos dizer que a musculação é no mínimo equivalente aos exercícios aeróbios na prevenção das doenças cardiovasculares como o infarto, o acidente vascular cerebral e a insuficiência arterial periférica, todas devidas à aterosclerose, por combater as condições predisponentes como o colesterol alto, a obesidade, o diabetes e a hipertensão. Evidências sugerem que os efeitos da musculação a longo prazo sejam superiores aos dos exercícios aeróbios em vários aspectos: controle da gordura corporal, controle do diabetes, prevenção da osteoporose, prevenção de dores reumáticas, aptidão física para a vida diária e prevenção de situações de risco de acidentes cardiovasculares agudos.

Diversos desses efeitos são devidos ao aumento de massa muscular e de força, que não são estimulados pelos exercícios aeróbios. O único parâmetro de aptidão física que é melhor estimulado pelos exercícios aeróbios em relação à musculação é o consumo máximo de oxigênio (VO2 máx). Esse parâmetro já foi usado como indicador de saúde e de qualidade de vida no aspecto da aptidão, o que atualmente não é mais aceito. A saúde de quem faz exercício aeróbio tende a ser estimulada porque a pessoa realiza atividade física, que casualmente é de um tipo que aumenta o VO2. Os esforços favorecidos pelo aumento do VO2 não são habituais na vida diária: ou são esforços muito intensos ou de média intensidade porém prolongados. Os esforços diários são intensos e curtos, embora repetidos, como na musculação, ou são muito suaves porém prolongados (caminhar, por exemplo). A musculação favorece todos esses esforços, razão pela qual é a base da reabilitação de pessoas idosas ou debilitadas. Além disso, o aumento de força muscular faz com que nas tarefas diárias ocorra menor aumento de freqüência cardíaca e da pressão arterial, evitando acidentes cardiovasculares agudos.

Muitos profissionais ainda desconhecem os aspectos acima expostos e alguns costumam ter receio quanto à segurança da musculação em condições especiais de saúde. Esse temor não está fundamentado em evidências, que na realidade são tranqüilizadoras nesse aspecto. Muitas vezes profissionais desatualizados indicam “apenas exercícios aeróbios” com a idéia de que essa atividade seja mais suave do que a musculação, o que também não é real. Assim sendo, em função do desconhecimento, ainda não atingimos a situação de indicação fundamental dos exercícios resistidos para promoção de qualidade de vida, saúde e conseqüentemente longevidade. Prevemos no entanto, com base nas evidências disponíveis, que este será o futuro mais ou menos breve, e que será vivenciado pelos profissionais mais jovens.

No entanto, um alerta deve ser colocado. Muitos dos efeitos salutares da musculação e da atividade física em geral podem ser reduzidos ou mesmo revertidos para o lado dos efeitos indesejáveis pelo uso de drogas, principalmente dos anabolizantes hormonais. Tal é o caso do combate à aterosclerose e dos riscos de eventos cardiovasculares agudos, que podem ser favorecidos por efeitos das drogas como o aumento do colesterol, redução do HDL (colesterol “bom”), aumento da pressão arterial, estímulo ao diabetes e tendência à coagulação do sangue. Estas não são considerações teóricas dissociadas da realidade, pois esses efeitos das drogas estão documentados, bem como diversos casos fatais, disponíveis para constatação dos que ainda acham que os riscos das drogas são pequenos.

Referências bibliográficas em “Bases Fisiológicas do Exercício Profilático e Terapêutico” www.saudetotal.com/cecafi

 
DR. JOSÉ MARIA SANTARÉM
- Doutor em medicina, fisiatra e reumatologista.
- Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Curso de Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Ambulatório de Atividade Física da Disciplina de Geriatria da FMUSP.
- Coordenador dos projetos de pesquisa do CECAFI.
- Diretor do Centro de Estudos HC-FMUSP de Medicina Esportiva.
- Responsável pelos Cursos para Formação de Técnicos em Treinamento com Pesos da Federação Paulista e Confederação Brasileira de Musculação.
- Professor de Cursos de Musculação e Medicina do Exercício em universidades, congressos e convenções, no Brasil e no exterior.
- Diretor e autor dos projetos dos aparelhos para exercícios resistidos da empresa Biodelta Atividade Física Ltda.


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