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BASES FISIOLÓGICAS DO EXERCÍCIO NA SAÚDE, NA DOENÇA E NO ENVELHECIMENTO - PARTE III:

EFEITOS NAS ARTICULAÇÕES
Tal como ocorre com os ossos, músculos e tendões, também as cartilagens e ligamentos recebem estímulos tróficos e de fortalecimento advindos da atividade física8, 36. Os exercícios com pesos são os mais eficientes para essa finalidade, devido às sobrecargas e amplitudes controladas, e à ausência de impacto. A concepção antiga de que o corpo humano é uma máquina que precisa ser preservada com o repouso merece reparos. Uma máquina biológica é aprimorada pelo uso não excessivo, e se deteriora rapidamente com o desuso. Entende-se por uso não excessivo o controle adequado das sobrecargas da atividade física.

As amplitudes articulares aumentam sempre que os pontos limites do movimento são forçados. Os exercícios com pesos e os de alongamento aumentam as amplitudes articulares das pessoas com limitações dos movimentos, seja por sedentarismo prolongado ou por retrações capsulares devidas à imobilizações6, 7, 8, 9, 12, 25, 26. Quando a pessoa já apresenta boa amplitude de movimentos, os exercícios com pesos são ineficientes para aumentar ainda mais a flexibilidade, isto sendo possivel apenas com os exercícios específicos. Os exercícios aeróbios têm pouco efeito na flexibilidade.

EFEITOS NO TECIDO ADIPOSO
A redução do tecido adiposo costuma ser um objetivo frequente dos programas de condicionamento físico por razões de saúde, estética ou desempenho esportivo. Para entendermos o processo de emagrecimento é importante conceituar que uma das funções do tecido adiposo é a de reserva energética. Calorias ingeridas e não utilizadas ficam armazenadas como gordura. A única maneira de diminuir a quantidade de tecido adiposo é ingerir menos calorias do que as necessárias, para que as reservas energéticas sejam mobilizadas8, 11, 24, 29. Na maioria das vezes, as calorias necessárias para manter a vida ou seja, para o metabolismo basal, corresponde a mais de 70 % do nosso gasto calórico diário. Mesmo atletas costumam ter a taxa metabólica basal próxima desses níveis. Qualquer atividade física contribui para o emagrecimento por gastar calorias. Exercícios com pesos e exercícios aeróbios não têm um gasto calórico muito diferente. Os exercícios com pesos gastam mais calorias na unidade de tempo, mas são interrompidos durante a sessão, e no descanso entre as séries não se gastam calorias com atividade. Os aeróbios gastam menos calorias na unidade de tempo, mas são contínuos, sem interrupção. Após uma hora, por exemplo, ambos gastaram mais ou menos a mesma quantidade de calorias. Para o gasto calórico, mais importante do que o tipo de exercício é a condição física do praticante.

Pessoas treinadas gastam muito mais calorias do que pessoas descondicionadas, em qualquer tipo de exercício.

Aspecto importante do emagrecimento é que a taxa metabólica basal pode ser aumentada com os exercícios, mas apenas se ocorrer aumento da massa muscular. Para esse efeito, os exercícios com pesos são os mais eficientes8, 31.

O fato de que apenas os exercícios aeróbios utilizam ácido graxo livre proveniente do tecido adiposo como substrato energético nada tem a haver com emagrecimento24. Os exercícios anaeróbios, como por exemplo os exercícios com pesos, que utilizam grandes quantidades de glicogênio e não mobilizam gordura durante a sua execução, emagrecem igual aos aeróbios. A explicação é que após os exercícios, todo o glicogênio gasto tem que ser reposto no músculo, e para tanto, é utilizado o carboidrato alimentar. Esse carboidrato portanto não fornece calorias para o metabolismo basal, pois foi “desviado” para o músculo, e tudo se passa como se a pessoa não o tivesse ingerido. Assim sendo, as calorias que faltaram na alimentação para manter a vida, serão obtidas do tecido adiposo, em repouso. Caso a pessoa não restringa a ingestão calórica, os exercício serão menos eficientes ou inúteis para o emagrecimento. Esses conceitos foram bem estabelecidos em revisões de literatura sobre obesidade e atualmente são consensuais11, 29.

EFEITOS ENDOCRINOLÓGICOS
A atividade física afeta a produção hormonal de diferentes maneiras 5, 8, 31. Os exercícios aumentam os níveis de endorfinas e reduzem os de cortisol, contribuindo para o bem-estar psicológico. Os níveis de hormônios anabólicos como os esteróides sexuais, hormônio de crescimento, IgF-1 e suas proteinas transportadoras também aumentam, principalmente com os exercícios resistidos. A sensibilidade adrenérgica dos vasos diminui, contribuindo para a redução da pressão arterial. A sensibilidade insulínica das células aumenta com qualquer atividade física, fazendo com que a pessoa viva com menores níveis de insulina, e assim evitando a falência do pâncreas por sobrecarga crônica e consequente diabetes mellitus.

ADAPTAÇÕES CARDIOVASCULARES
Os exercícios aeróbios são os mais eficientes para induzir adaptações hemodinâmicas, como o aumento do volume sistólico e a redução da frequência cardíaca de repouso. Ao conjunto dessas adaptações dá-se o nome de aptidão cardiovascular, o que não deve ser confundido com saúde cardiovascular. Esta depende em última análise da ausência de aterosclerose, cujas condições predisponentes (dislipidemia, hipertensão, obesidade e diabetes) são evitadas por qualquer tipo de atividade física 28, 30. As adaptações cardiovasculares aos exercícios com pesos são devidas mais à uma sobrecarga de pressão do que à uma sobrecarga de volume sanguíneo5, 22, 31, 35, 40. Basicamente se observa uma hipertrofia de parede ventricular e septal, sem aumento ou com pequeno aumento do volume das câmaras cardíacas. Alguns autores denominam essa hipertrofia como concêntrica o que não é aconselhável, pois pode haver confusão com a cardiopatia hipertensiva, que apresenta redução das câmaras. Na hipertensão arterial crônica a cardiopatia evolui para a insuficiência e apresenta alta incidência de arritmia, parada cardíaca e infarto, sendo portanto considerada patológica. As adaptações cardíacas aos exercícios, de qualquer tipo, são fisiológicas e não apresentam morbidade. Exercícios de alongamento não induzem adaptações cardíacas detectáveis.

EFEITOS METABÓLICOS E QUALIDADE DE VIDA
Parâmetros de aptidão como a potência aeróbia, medida pelo VO2 máximo, e a capacidade aeróbia, medida pelo limiar anaeróbio, são mais eficientemente estimuladas pelos exercícios aeróbios. Durante muito tempo o VO2 máximo foi considerado parâmetro de saúde, pela sua associação com menor incidência de doenças crônicas, mas hoje se admite que essa relação seja apenas associativa e não de causa e efeito30. Pessoas melhoram a saúde quando fazem exercícios, e se os exercícios forem de um tipo que aumenta o VO2 máximo, podem ocorrer conclusões indevidas. Os exercícios com pesos têm pouco efeito no VO2 máximo, mas estimulam bastante o limiar anaeróbio1, 8, 13, 19. Isto ocorre porque o fortalecimento dos músculos permite que as tarefas sejam realizadas com menor número de fibras. Assim sendo, o nível de produção energética que se atinge com 30 % das fibras aumenta após o treinamento. O VO2 máximo alto é uma necessidade para alguns atletas, mas na vida diária da maioria das pessoas o VO2 não é utilizado no seu limite máximo. Ao contrário, o limiar anaeróbio tem nítida relação com qualidade de vida, pois as pessoas com baixo limiar fazem a a maioria das tarefas laborativas anaerobiamente, portanto com fadiga e desconforto.

Do ponto de vista biomecânico, a qualidade de vida depende basicamente de força e de flexibilidade. Os exercícios com pesos estimulam ambas as qualidades, os de alongamento apenas a flexibilidade, e os aeróbios nenhuma delas em grau significativo. Graus máximos de flexibilidade são necessários apenas para alguns atletas, e as lesões articulares incidem mais nas pessoas mais flexíveis.

A homeostase hemodinâmica nos esforços da vida diária e do trabalho físico, com pequenas elevações da frequência cardíaca e da pressão arterial, depende basicamente da força muscular. Pessoas fortes fazem as tarefas com menor número de fibras; isto significa menor intensidade de esforço; consequentemente, menores repercussões hemodinâmicas por mecanismos reflexos.

 
DR. JOSÉ MARIA SANTARÉM
- Doutor em medicina, fisiatra e reumatologista.
- Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Curso de Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Ambulatório de Atividade Física da Disciplina de Geriatria da FMUSP.
- Coordenador dos projetos de pesquisa do CECAFI.
- Diretor do Centro de Estudos HC-FMUSP de Medicina Esportiva.
- Responsável pelos Cursos para Formação de Técnicos em Treinamento com Pesos da Federação Paulista e Confederação Brasileira de Musculação.
- Professor de Cursos de Musculação e Medicina do Exercício em universidades, congressos e convenções, no Brasil e no exterior.
- Diretor e autor dos projetos dos aparelhos para exercícios resistidos da empresa Biodelta Atividade Física Ltda.

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