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BASES FISIOLÓGICAS DO EXERCÍCIO - NA SAÚDE, NA DOENÇA E NO ENVELHECIMENTO:

1ª parte (trabalho publicado no JM&F em quatro partes)

Exercícios físicos são parte integrante da prática e preparação esportiva, e podem ser utilizados em medicina com diversas finalidades. Os principais objetivos da prescrição de exercícios são a profilaxia, tratamento e reabilitação de doenças e deformidades, promoção de aptidão para as atividades da vida diária, para o trabalho, para o lazer e para o esporte, além de estímulo à estética corporal e ao bem-estar psicológico. Esses efeitos decorrem de adaptações morfológicas e funcionais induzidas pela atividade física em geral 15, 28, 30, 31, 36, 37. Alguns parâmetros de aptidão e saúde apresentam incremento em seus valores de medida em função da atividade física, entre eles a massa óssea, massa muscular, taxa metabólica, gasto calórico, hormônios anabólicos, força, potência, resistência, flexibilidade, coordenação, VO2 máximo, limiar anaeróbio, sensibilidade à insulina, HDL colesterol e níveis de endorfinas. Outros parâmetros apresentam redução de valores: massa adiposa, sensibilidade adrenérgica, LDL e VLDL colesterol, triglicerídeos e níveis de cortisol.

Para os objetivos habituais da medicina esportiva alguns aspectos serão abordados, particularmente com relação aos exercícios de fortalecimento muscular, cada vez mais enfatizados em promoção de saúde e terapia física.

ESTÍMULO À SAÚDE
Todos os médicos e profissionais da saúde devem estar atualizados nas relações dos exercícios com a saúde, para que não sejam perdidas oportunidades de bem orientar as pessoas.

Estudos epidemiológicos evidenciaram que as populações fisicamente ativas têm menor incidência de muitas doenças e situações patogênicas, entre elas a hipertensão arterial, a obesidade, o diabetes mellitus, a dislipidemia, a osteoporose, a sarcopenia, e também ansiedade e depressão28,30.

Conseqüentemente, diminui a ocorrência de aterosclerose e suas consequências: doença coronariana, doença cérebro-vascular e doença vascular periférica. Também diminui o confinamento no leito devido a fraturas ósseas e incapacidade física grave, reduzindo-se a mortalidade por infecções pulmonares e tromboembolismo 6,7,12.

Um aspecto importante é que os estudos epidemiológicos não evidenciaram superioridade de nenhuma forma de atividade física sobre outras, no que diz respeito à promoção de saúde. Em publicação conjunta com o Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos da América, o American College of Sports Medicine reconheceu em 1995 que as suas próprias recomendações para promoção de saúde, anteriores a essa data, estavam incorretas30.

A entidade divulgava até então, que os exercícios aeróbios que aumentam o VO2 máximo eram preferenciais para estimular a saúde. Atualmente consensos internacionais reconhecem que o estímulo à saúde ocorre também com atividades anaeróbias e interrompidas, que não aumentam o VO2 máximo.

Talvez os estudos não tenham tido a sensibilidade necessária para esclarecer essa questão, mas o fato concreto é que atualmente não é possivel afirmar que alguma atividade física seja mais saudável do que outras, a não ser que se considerem os riscos de lesões músculoesqueléticas e de intercorrências cardiovasculares. Por essa razão, as campanhas de saúde pública não enfatizam a necessidade de uma forma particular de atividade física, mas a importância de um estilo de vida não sedentário. Entende-se por atividade física a contração muscular de qualquer tipo, que pode ou não levar ao movimento, independente da finalidade: postura, trabalho, locomoção, esporte e lazer. Desde que o gasto calórico seja superior à média diária de aproximadamente 200 Kcal, haverá redução na incidência de doenças. Exercício é conceituado como forma especial de atividade física, planejada, sistematizada, progressiva e adaptada ao indivíduo, sempre com o objetivo de estimular uma ou várias adaptações morfológicas ou funcionais.

Outro aspecto relevante é que os efeitos deletérios à saúde produzidos pelo sedentarismo são lentamente progressivos. Pessoas jovens sedentárias não se apercebem dos problemas, que são bastante evidentes nas pessoas mais idosas12. Esse fato justifica a atitude médica de estimular a atividade física em todas as faixas etárias. Também é importante notar que a motivação para a atividade física pode mudar com a faixa etária, mas isto não afeta o efeito promotor de saúde. Exemplificando, uma pessoa jovem pode ter como primeira motivação para exercícios a estética corporal ou o lazer, mas os efeitos salutares estarão sempre presentes.

CLASSIFICAÇÃO DOS EXERCÍCIOS
Embora não exista consenso de nomenclatura, alguns dos critérios utilizados para classificar os exercícios são o tipo de contração muscular (isotônicos ou isométricos), deslocamento do corpo (dinâmicos ou estáticos), continuidade do esforço (contínuos ou intervalados), fonte energética (aeróbios ou anaeróbios), ou ainda de acordo com a intensidade dos esforços (suaves ou intensos).

  • ISOTÔNICOS: Apresentam alternância de contrações concêntricas e excêntricas.

  • ISOMÉTRICOS: Utilizam contrações estáticas (isométricas).

  • DINÃMICOS: Apresentam deslocamento do corpo no espaço.

  • ESTÁTICOS: São realizados sem deslocamento do corpo.

  • CONTÍNUOS: São interrompidos apenas no final da sessão.

  • INTERVALADOS: Apresentam várias interrupções para descanso durante a sessão.

  • AERÓBIOS: A produção energética é quase que exclusivamente aeróbia.

  • ANAERÓBIOS: Grande parte da energia é produzida anaerobiamente.

  • SUAVES: Produzem pouca energia na unidade de tempo, sem grande esforço.

  • INTENSOS: Produzem muita energia na unidade de tempo, com grande esforço.

Do ponto de vista médico, a classificação mais importante é a que considera a intensidade dos esforços. Quanto mais intensa a atividade, maior a necessidade de aptidão e saúde, sendo maiores os riscos de lesões musculoesqueléticas17, 18, 20, 32, 33, 34 e intercorrências cardiovasculares5, 8, 10, 21, 22, 31, 35. Intensidade é a expressão biológica da potência, ou seja, além da energia produzida na unidade de tempo, é considerado o grau de esforço necessário para a realização da tarefa. Assim sendo, uma mesma tarefa pode ser de baixa intensidade para uma pessoa bem condicionada, e de alta intensidade para outra pessoa com baixos níveis de aptidão. Pessoas debilitadas, descondicionadas ou doentes devem realizar apenas exercícios suaves, quaisquer que sejam as outras classificações da atividade36. No entanto, a noção de que exercícios suaves são sempre isotônicos e aeróbios não é correta.

Exercícios isométricos podem ser suaves, como é o caso de contrações musculares em um membro imobilizado por aparelho gessado. Exercícios anaeróbios podem ser suaves, como no caso de uma sessão de musculação com pesos sub-máximos. Por outro lado, exercícios isotônicos e aeróbios como por exemplo pedalar ou correr próximo do limiar anaeróbio são considerados intensos, promovem elevação considerável da frequência cardíaca, e podem oferecer risco cardiovascular para pessoas com doença coronariana, às vezes sub-clínica4, 31, 38, 40.

ASPECTOS DA PRODUÇÃO ENERGÉTICA
Quando uma pessoa realiza uma atividade considerada suave para ela, ou porque a atividade necessita de pouca energia ou porque a pessoa está bem condicionada, apenas algumas fibras musculares são utilizadas 8, 13, 19. Nesse caso a produção de energia ocorrerá pela via aeróbia, porque o oxigênio que chega pelo sangue é suficiente e alcança todas as fibras musculares ativas.

Essas atividades são chamadas aeróbias e utilizam como substratos energéticos predominantes o glicogênio muscular e os ácidos graxos livres provenientes do tecido adiposo. Atividades mais intensas utilizam maior número de fibras musculares. Quando aproximadamente 30 a 40% das fibras musculares disponíveis são recrutadas, está-se em um nível de gasto energético de transição, chamado limiar anaeróbio. Acima desse nível de contração muscular começa a ocorrer oclusão parcial da circulação sanguínea, impedindo a adequada perfusão de todas as fibras musculares e
assim precipitando o metabolismo anaeróbio.

Nas fases iniciais de qualquer exercício a produção de energia é anaeróbia, mesmo que a intensidade não seja alta, porque os mecanismos de captação, transporte e utilização do oxigênio levam algum tempo para aumentar a eficiência. Nas fases iniciais do metabolismo anaeróbio o substrato energético predominante é a fosfocreatina, que não forma ácido láctico, e portanto a via metabólica é denominada anaeróbia aláctica. Nas atividades mais intensas, após alguns segundos de anaerobiose aláctica, a produção energética passa a depender mais do glicogênio que, decomposto parcialmente, leva à produção do lactato. Sempre que ocorre aumento do lactato a atividade é chamada anaeróbia. As atividades muito curtas e intensas, dependentes da fosfocreatina, também são anaeróbias, mas sem produção de lactato. A produção aeróbia de energia sempre está presente, mesmo nos exercícios anaeróbios, embora nas atividades intensas e muito curtas seja desprezível.

No caso de exercícios contínuos intensos, como pedalar ou correr com velocidade, a produção aeróbia de energia pode chegar à sua eficiência máxima, conhecida como VO2 máximo.

Nesses casos a produção energética depende da glicólise anaeróbia, da oxidação da glicose do músculo e do sangue, e também da oxidação dos lipídeos intra-musculares. Estes exercícios são acompanhados de altos níveis de lactato sanguíneo e tecidual, caracterizando atividades anaeróbias muito intensas, toleradas apenas por pessoas hígidas.

Os exercícios com pesos são sempre anaeróbios porque a oclusão da circulação sangüínea intramuscular é grande. Assim sendo, a aerobiose ocorre apenas nas fases de relaxamento muscular, que permitem a circulação do sangue, e é menor do que nos exercícios anaeróbios contínuos. Embora os exercícios com pesos sejam sempre anaeróbios, a intensidade somente será alta quando o grau de esforço também o for. Como veremos adiante, pessoas debilitadas por diversas doenças crônicas ou sedentarismo toleram bem exercícios com pesos com grau de esforço sub-máximo, porque a freqüência cardíaca e a pressão arterial não atingem valores elevados 4, 5, 8, 31, 35, 38, 40.

 
DR. JOSÉ MARIA SANTARÉM
- Doutor em medicina, fisiatra e reumatologista.
- Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Curso de Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da USP.
- Coordenador do Ambulatório de Atividade Física da Disciplina de Geriatria da FMUSP.
- Coordenador dos projetos de pesquisa do CECAFI.
- Diretor do Centro de Estudos HC-FMUSP de Medicina Esportiva.
- Responsável pelos Cursos para Formação de Técnicos em Treinamento com Pesos da Federação Paulista e Confederação Brasileira de Musculação.
- Professor de Cursos de Musculação e Medicina do Exercício em universidades, congressos e convenções, no Brasil e no exterior.
- Diretor e autor dos projetos dos aparelhos para exercícios resistidos da empresa Biodelta Atividade Física Ltda.


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